Mar de Ulisses

Cartografia

Mapa das viagens

Quatro rotas sobre o Mediterrâneo: Ulisses, os argonautas, Teseu e Europa. As coordenadas seguem as identificações tradicionais, que muitas vezes são bem posteriores aos poemas; quando um lugar é só um palpite — a terra dos lotófagos, a ilha de Calipso, o lago Tritônis —, dizemos isso na nota da escala. As linhas entre os portos são convenção de mapa, não o rumo real dos navios.

TroiaIsmaro, terra dos cíconesCabo MaleiaTerra dos lotófagosIlha dos ciclopesEeia, ilha de CirceCila e CaríbdisEsquéria, terra dos feáciosÍtaca Iolco e PagasasLemnosSimplégadesCólquidaFoz do IstroDrépane, ilha dos feáciosSirte e lago TritônisCretaDe volta a Pagasas TrezenaIstmo de CorintoRochas CirôniasElêusisAtenasCnossosNaxosDelosFalero, de volta a Atenas SídonTiroAo largo de ChipreGortinaCnossos ElêusisPaxosNaxosVale de TempeCabo TênaroDelfos

Ulisses: de Troia a Ítaca

Dez anos de regresso, segundo a Odisseia. Seguimos as identificações tradicionais, quase todas posteriores a Homero: até o cabo Maleia, a geografia é real; dali em diante, a tempestade empurra o herói para um mar cuja localização os próprios antigos já discutiam.

  1. TroiaPonto de partida, na colina de Hisarlık, na atual Turquia. Depois de dez anos de guerra, os navios de Ítaca se fazem ao mar carregados de despojos.
  2. Ismaro, terra dos cíconesNa costa da Trácia. Ulisses saqueia a cidade, mas os companheiros se demoram na praia bebendo, e os cícones contra-atacam: seis homens de cada navio morrem.
  3. Cabo MaleiaA ponta sudeste do Peloponeso. Quando o regresso parecia certo, o vento norte e a correnteza arrastam a frota para longe de Citera por nove dias. Aqui termina o mapa conhecido.
  4. Terra dos lotófagosTradicionalmente situada na ilha de Djerba, na Tunísia, uma identificação antiga, mas posterior a Homero. Quem prova o lótus esquece o caminho de casa; Ulisses arrasta os companheiros de volta aos navios.
  5. Ilha dos ciclopesA tradição antiga põe os ciclopes na Sicília, junto ao Etna. Os rochedos de Aci Trezza seriam as pedras que Polifemo, cego, atirou contra o navio — um palpite bem posterior ao poema.
  6. Eeia, ilha de CirceIdentificada desde a Antiguidade com o monte Circeo, promontório do Lácio que, visto do mar, parece uma ilha. Circe transforma parte da tripulação em porcos, e Ulisses fica com ela um ano.
  7. Cila e CaríbdisO estreito de Messina, entre a Sicília e a Calábria, é a identificação clássica: de um lado, o monstro de seis cabeças; do outro, o redemoinho que engole o mar três vezes por dia.
  8. Esquéria, terra dos feáciosCorfu, desde a Antiguidade. Ulisses chega náufrago, vindo de Ogígia, a ilha de Calipso, que ninguém sabe situar. Os feácios ouvem sua história e o levam para casa num navio veloz.
  9. ÍtacaA ilha do mar Jônico que hoje leva esse nome. Ulisses desembarca dormindo e não reconhece a própria terra. Há quem situe a Ítaca homérica em Cefalônia; a questão segue aberta.

Argonautas: o velocino de ouro

A viagem do Argo segundo as Argonáuticas de Apolônio de Rodes, do século III a.C. A ida ao mar Negro segue costas reais; a volta, por rios que no poema ligam mares que na realidade não se ligam, mistura o conhecido e o imaginado.

  1. Iolco e PagasasNa baía da atual Volos, na Tessália. Pélias manda Jasão buscar o velocino de ouro, e do porto de Pagasas parte o Argo, que levava uma viga falante feita do carvalho de Dodona.
  2. LemnosAs mulheres da ilha tinham matado os homens. Recebem os argonautas, e a escala se prolonga muito mais do que devia, até Héracles exigir a partida.
  3. SimplégadesAs rochas que se chocavam, na saída do Bósforo para o mar Negro. Seguindo o conselho do adivinho Fineu, os heróis soltam uma pomba e passam no rastro dela; depois disso, as rochas param.
  4. CólquidaNa foz do rio Fásis, na atual Geórgia, perto de Poti. Com a ajuda de Medeia, Jasão doma touros de bronze, semeia dentes de dragão e leva o velocino guardado por uma serpente.
  5. Foz do IstroFugindo dos colcos, o Argo sobe o Istro, o Danúbio, e sai no Adriático. Os antigos imaginavam um braço do rio desaguando desse lado; nenhum rio real faz essa ligação.
  6. Drépane, ilha dos feáciosA mesma Corfu da rota de Ulisses. Ali, para não entregar Medeia aos colcos que os perseguem, Jasão se casa com ela às pressas, numa gruta sagrada.
  7. Sirte e lago TritônisUma tempestade lança o Argo nos baixios da Líbia, e os heróis carregam o navio nas costas pelo deserto até o lago Tritônis. Lugar incerto; uma hipótese comum é a região do golfo de Gabès.
  8. CretaO gigante de bronze Talos guarda a ilha atirando pedras nos navios. Medeia o enfeitiça com o olhar, e ele fere o tornozelo, onde ficava sua única veia.
  9. De volta a PagasasDepois de uma noite escura em que Apolo lhes revela a ilhota de Anafe e de uma última parada em Égina, os argonautas desembarcam na praia de onde tinham partido.

Teseu: Trezena, Atenas, Creta e a volta

A rota junta duas viagens: por terra, a estrada do Istmo, onde o jovem herói limpa o caminho de bandidos; por mar, a ida a Creta com os jovens do tributo e a volta por Naxos e Delos. A sequência segue sobretudo Plutarco e Apolodoro.

  1. TrezenaCidade da Argólida onde Teseu cresceu com a mãe, Etra. Ao erguer uma pedra, encontra a espada e as sandálias deixadas por Egeu e decide ir a Atenas por terra, o caminho mais perigoso.
  2. Istmo de CorintoNo Istmo vivia Sínis, que amarrava viajantes a pinheiros vergados e os soltava. Teseu lhe aplica o mesmo castigo. Antes, em Epidauro, já tinha vencido Perifetes, o homem da clava.
  3. Rochas CirôniasNos penhascos entre Corinto e Mégara, Círon obrigava os viajantes a lavar seus pés e os chutava para o mar, onde uma tartaruga os devorava. Teseu o atira do mesmo rochedo.
  4. ElêusisAqui Teseu vence na luta o rei Cércion. Mais adiante, já no caminho de Atenas, enfrenta Procusto, que ajustava os hóspedes ao tamanho da própria cama.
  5. AtenasReconhecido por Egeu apesar das intrigas de Medeia, Teseu se oferece para ir a Creta entre os jovens mandados como tributo ao Minotauro. O navio parte com velas negras.
  6. CnossosNo palácio de Minos, Ariadne dá a Teseu o novelo de fio que permite sair do Labirinto depois de matar o Minotauro. Os dois fogem por mar.
  7. NaxosTeseu deixa Ariadne adormecida na praia. Por quê, as fontes não concordam: esquecimento, ordem divina ou outro amor. Quem a encontra é Dioniso.
  8. DelosSegundo Plutarco, Teseu e os jovens dançam em Delos, em volta do altar de Apolo, a dança do grou, que imitava as voltas do Labirinto.
  9. Falero, de volta a AtenasTeseu esquece de trocar as velas negras pelas brancas. Egeu, ao vê-las, se mata: da Acrópole, segundo Pausânias; no mar, segundo outros, que assim explicavam o nome do Egeu.

Europa: da Fenícia a Creta

A travessia mais curta do mapa e a única feita no dorso de um touro. Zeus, disfarçado, leva a princesa fenícia pelo mar até Creta, onde ela será mãe de Minos. As escalas intermediárias são reconstituição nossa; as fontes só falam de partida e chegada.

  1. SídonOvídio chama de sidônia a terra de onde Mercúrio tange o rebanho do rei até a praia. A Ilíada diz que Europa era filha de Fênix; outros a fazem filha de Agenor.
  2. TiroNa praia de Tiro, Europa brinca com as companheiras quando um touro branco, manso como nenhum outro, se deita a seus pés. Ela sobe no dorso dele, e o touro entra no mar.
  3. Ao largo de ChipreNenhuma fonte manda o touro parar aqui; é o rumo natural de quem cruza do Levante para Creta. Luciano, num dos Diálogos marinhos, imagina o cortejo: nereidas sobre golfinhos, tritões e a própria Afrodite.
  4. GortinaNo sul de Creta. Ali se mostrava um plátano que nunca perdia as folhas, sob o qual Zeus teria se unido a Europa; moedas da cidade mostram a jovem sentada numa árvore.
  5. CnossosEuropa se casa com Astério, rei de Creta, que cria os filhos dela com Zeus: Minos, Radamanto e, em algumas versões, Sarpédon. Minos reinará em Cnossos.

Lugares do diário

Elêusis

Santuário de Deméter e Perséfone, na baía que a ilha de Salamina fecha a oeste de Atenas. Aqui se celebravam os Mistérios, cujo segredo resistiu por séculos. Os iniciados chegavam pela Via Sacra depois de se purificar no mar de Falero, e o grito de Iaco ecoava pela planície até as águas onde, em 480 a.C., se travou a batalha de Salamina.

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Paxos

Pequena ilha do mar Jônico, ao sul de Corfu. Perto dela, conta Plutarco, uma voz chamou três vezes o piloto egípcio Tamo e mandou que ele anunciasse, mais adiante, que o grande Pã estava morto. O lugar onde ele deveria gritar, Palodes, nunca foi identificado com segurança.

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Naxos

A maior das Cíclades e, na tradição mais conhecida, a ilha onde Teseu abandonou Ariadne e onde Dioniso a encontrou. Na versão de Ovídio, era para Naxos que o jovem deus pediu passagem aos piratas tirrenos. A Odisseia fala de outra ilha, Dia, e de outro desfecho para Ariadne.

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Vale de Tempe

Desfiladeiro da Tessália por onde o rio Peneu corre entre o Olimpo e o Ossa até o mar Egeu. Ovídio faz de Dafne filha desse rio. Em Delfos, contava-se que os ramos do primeiro templo de Apolo, uma cabana de louro, tinham sido trazidos daqui.

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Cabo Tênaro

A ponta extrema do Peloponeso, na península da Mani, conhecida dos navegantes pelos ventos difíceis. Os antigos situavam aqui uma entrada para o mundo dos mortos. É por ela que Psiquê, em Apuleio, desce ao reino de Prosérpina com duas moedas na boca e dois bolos nas mãos.

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Delfos

O santuário de Apolo, nas encostas do Parnaso, acima do golfo de Corinto. Pausânias viu ali imagens de apenas duas Moiras: no lugar da terceira estavam Zeus e Apolo, “condutores das Moiras”. O Hino Homérico a Apolo conta que os primeiros sacerdotes do lugar foram marinheiros cretenses guiados por um golfinho.

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