Mar de Ulisses

Deuses a bordo

Dioniso, o deus que chega pelo mar

Piratas, golfinhos e uma videira subindo pelo mastro

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Pintura em nanquim e aguada: Dioniso coroado de hera e cachos de uva, com o tirso na mão, cercado de mênades e de uma pantera, com ondas e névoa ao fundo.

No fundo de uma taça pintada por Exéquias por volta de 530 a.C., hoje em Munique, um navio de vela branca desliza sobre um mar cor de coral. Deitado no convés, um deus de barba segura um chifre de beber. Do mastro brota uma videira carregada de cachos que se abre por cima da vela, e em volta do casco nadam golfinhos. Quem via a imagem surgir aos poucos, enquanto esvaziava a taça, conhecia a história: o dia em que piratas tentaram sequestrar Dioniso.

Os piratas tirrenos

O relato mais antigo está no Hino Homérico a Dioniso, o sétimo da coleção. O deus aparece num promontório à beira-mar, com a aparência de um rapaz, cabelos escuros soltos e um manto púrpura nos ombros. Piratas tirrenos o avistam do navio, julgam que é filho de reis e que renderá um bom resgate, e o arrastam a bordo. Tentam amarrá-lo, mas as cordas caem sozinhas de suas mãos e de seus pés. Só o timoneiro entende o que está acontecendo e implora que o soltem; o capitão ri dele e manda içar a vela.

Então começam os prodígios.

E logo, sobre o navio negro e veloz, correu um vinho doce, de aroma suave, e um perfume divino se ergueu; o espanto tomou todos os marinheiros ao verem aquilo.

Hino Homérico a Dioniso (tradução nossa)

Uma videira se estende pelo alto da vela, a hera se enrosca no mastro, os toletes se cobrem de grinaldas. O rapaz se transforma em leão e ruge no navio; no meio do convés aparece uma ursa. Os piratas, apavorados, saltam no mar e viram golfinhos. Só o timoneiro é poupado, e o deus se apresenta: é Dioniso, filho de Sêmele e de Zeus.

Ovídio retomou a cena no livro 3 das Metamorfoses, com mudanças. O timoneiro ganha nome, Acetes, e é ele quem narra o episódio ao rei Penteu, de Tebas, que o mandou prender. Na versão latina, o rapaz pede para ser levado a Naxos, e os marinheiros, por cobiça, viram o leme para o outro lado. O navio para no meio do mar, como se estivesse em seco num estaleiro; os remos se enchem de hera, e os homens viram golfinhos diante dos olhos do narrador.

Duas mães e uma coxa

Os gregos gostavam de dizer que Dioniso era um deus estrangeiro, recém-chegado da Trácia ou da Ásia. As tabuletas micênicas desmentem a ideia: o nome dele, escrito di-wo-nu-so, já aparece em registros em Linear B de Pilos e de Chania, em Creta, muitos séculos antes de Homero. Dioniso não era novo; era um deus que se apresentava como quem chega.

Hesíodo, na Teogonia, resume o nascimento em poucos versos: Sêmele, filha de Cadmo, uniu-se a Zeus e deu à luz um filho imortal, ela, uma mortal. Fontes posteriores, como Ovídio e Apolodoro, contam o resto. Hera, disfarçada de Béroe, a velha ama de Sêmele, convence a moça a pedir que o amante apareça em toda a sua glória. Zeus, preso a uma promessa, vem com o raio, e Sêmele morre fulminada. O deus retira do corpo dela o filho ainda por nascer e o costura na própria coxa até o fim da gestação. Depois, o menino é entregue às ninfas de Nisa, um monte que os antigos situavam em lugares muito diferentes.

A Ilíada já conhece um episódio de fuga. Licurgo, rei trácio, perseguiu as amas do pequeno Dioniso com um aguilhão de bois; elas largaram no chão os objetos sagrados, e o menino, apavorado, mergulhou no mar, onde Tétis o recebeu no colo. É uma das primeiras imagens do deus na literatura grega: uma criança fugindo para as ondas.

O estrangeiro em Tebas

A peça que melhor mostra esse deus que chega é As Bacantes, de Eurípides, encenada em Atenas pouco depois da morte do poeta, ocorrida em 406 a.C. Dioniso volta a Tebas, a cidade de sua mãe, disfarçado de estrangeiro da Lídia, de cabelos longos e perfumados. As irmãs de Sêmele tinham negado que o sobrinho fosse filho de Zeus; por isso ele enlouqueceu as mulheres da cidade e as levou para o monte Citerão, como mênades. O rei Penteu, primo do deus, quer prender o estrangeiro e acabar com o culto. Termina vestido de mulher, espionando os ritos, e é despedaçado pela própria mãe, Agave, que volta à cidade com a cabeça do filho achando que traz a de um leão.

É uma tragédia sobre o que acontece a quem recusa o deus, mas também sobre o próprio teatro. As tragédias e comédias de Atenas eram apresentadas nas festas de Dioniso, no teatro que levava seu nome, aos pés da Acrópole. Os atores usavam máscaras, e Dioniso era o deus das máscaras e das metamorfoses: aquele que faz alguém ser, por algumas horas, outro.

Naxos, Ariadne e o navio com rodas

O mar volta no fim de outra história. Teseu, depois de matar o Minotauro em Creta, levou consigo Ariadne, a filha de Minos que o ajudara, e a abandonou numa ilha no caminho para Atenas. Na tradição mais conhecida, a ilha é Naxos, e quem encontra a jovem na praia é Dioniso, que faz dela sua esposa. Hesíodo já conhece o casamento: Zeus, diz a Teogonia, tornou Ariadne imortal e livre da velhice. A Odisseia, porém, conta outra coisa: Ártemis matou Ariadne na ilha de Dia, por denúncia de Dioniso. As fontes não se entendem, e é melhor não fingir que se entendem.

Alguns vasos áticos mostram Dioniso sobre um navio montado em rodas, puxado em procissão. Muitos estudiosos ligam essas imagens a uma festa ateniense em que o deus chegava “pelo mar” à cidade, mas qual festa era essa ainda se discute. Seja como for, a ideia combina com tudo o que se contava sobre ele. Dioniso é o deus que chega. Mesmo quando seu culto já tinha séculos, os gregos o imaginavam vindo de fora, pelas ondas, com cheiro de vinho e um bando ruidoso atrás.

Nesse bando estavam sátiros, mênades e, de acordo com o hino que lhe é dedicado, o deus que mais alegrou Dioniso no Olimpo: Pã, o filho de Hermes. Em Elêusis, o grito de Iaco, que muitos atenienses identificavam com Dioniso, acompanhava a procissão dos iniciados de Deméter. A rota de Teseu até Naxos está traçada no nosso mapa das viagens.

Fontes consultadas

  1. Hinos Homéricos, Hino a Dioniso 7
  2. Homero, Ilíada 6.130–140
  3. Homero, Odisseia 11.321–325
  4. Hesíodo, Teogonia 940–942; 947–949
  5. Eurípides, As Bacantes
  6. Ovídio, Metamorfoses 3.511–733

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