Mar de Ulisses

Deuses a bordo

Apolo e Dafne: a corrida que terminou em loureiro

Uma flecha de ouro, uma de chumbo e uma ninfa que preferiu raízes

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Pintura em nanquim e aguada: Dafne se transforma em loureiro, com os braços virando ramos e os pés em raízes, enquanto Apolo estende a mão para alcançá-la à beira de um rio.

Quando o Hino Homérico a Apolo conta como o deus escolheu os sacerdotes de Delfos, a cena é de mar aberto. Um navio de cretenses de Cnossos segue para Pilos a negócios quando um golfinho enorme salta para o convés. Ninguém consegue tirá-lo dali. O navio passa a navegar sozinho, sem que o leme obedeça, contorna o Peloponeso, entra no golfo de Corinto e encosta em Crisa. Ali o golfinho salta como uma estrela, entra no santuário e depois reaparece como um rapaz: é Apolo, que fará daqueles marinheiros os guardiões de seu templo. Daí um de seus títulos, Delfínio. O deus que chega ao seu santuário pelo mar tem como planta sagrada uma árvore nascida à beira de um rio. Essa é outra história, e quem a contou melhor foi Ovídio.

A primeira paixão de Febo

O episódio está no primeiro livro das Metamorfoses, terminadas por volta de 8 d.C. Apolo — Febo, para os poetas romanos — acaba de matar a serpente Píton com suas flechas e, orgulhoso, zomba de Cupido: arco é coisa de guerreiro, não de menino. Cupido responde do alto do Parnaso com duas flechas. Uma, de ponta de ouro, desperta o amor; a outra, de ponta de chumbo, faz fugir dele. A primeira atinge Apolo; a segunda, Dafne, filha do rio Peneu, na Tessália. Ovídio faz questão de dizer que não foi o acaso: foi a raiva de Cupido.

Dafne é caçadora e quer viver como Diana, sem marido. O pai reclama: ela lhe deve um genro, deve-lhe netos. A moça o abraça e pede o mesmo privilégio que a deusa recebeu de Júpiter, o de permanecer virgem, e Peneu cede — mas a beleza dela, diz o poeta, impede que o desejo se cumpra. É nesse ponto que Apolo a vê.

A corrida até o rio

O que se segue é uma perseguição contada em velocidade. Apolo corre e fala ao mesmo tempo. Pede que ela não se machuque nos espinhos, promete correr mais devagar se ela também correr, e desfia seus títulos como quem apresenta credenciais: não é um montanhês, não é um pastor rude; servem-no a terra de Delfos, Claros, Tênedos e o palácio de Pátara. Para quem lê com um mapa ao lado, a lista parece um roteiro de cabotagem — um santuário no continente, outro na costa da Jônia, uma ilha diante de Troia, um porto da Lícia. O deus da adivinhação, da música e da medicina descobre que nenhuma erva cura o amor.

Ovídio compara a cena a um cão de caça que persegue uma lebre em campo aberto: um já crê agarrar, a outra ainda não sabe se foi apanhada. Dafne perde as forças. Diante das águas do Peneu, pede ao pai que destrua a figura que tanto agradou. Mal termina a prece, um torpor pesado lhe toma os membros: o peito se cobre de casca fina, os cabelos viram folhas, os braços viram ramos. Os pés, tão rápidos um momento antes, prendem-se em raízes, e o rosto se torna copa. Resta só o brilho.

Apolo ainda a ama. Põe a mão no tronco e sente o coração bater debaixo da casca nova; beija a madeira, e a madeira foge dos beijos.

Já que não podes ser minha esposa, serás ao menos a minha árvore. Sempre te levarão, loureiro, os meus cabelos, a minha cítara, a minha aljava.

Ovídio, Metamorfoses (tradução nossa)

Ele promete que o louro coroará os generais romanos nos triunfos e montará guarda à porta de Augusto — e, desde 27 a.C., por decreto do Senado, loureiros enfeitavam de fato a entrada da casa do imperador no Palatino. O loureiro, diz o poema, inclina os ramos recém-nascidos e parece mover a copa como uma cabeça que consente. Ovídio não esclarece se é consentimento ou apenas o vento.

Outras margens, outras Dafnes

Ovídio não inventou Dafne, mas deu à história a forma que ficou. Outras versões gregas mudam o rio, o pai e até o enredo. Partênio de Niceia, poeta do século I a.C. que reuniu em grego um pequeno livro de Sofrimentos de amor, faz de Dafne filha de Amiclas, caçadora da Lacônia, e põe na história um rival humano: Leucipo, que se disfarça de moça para caçar ao lado dela. Apolo, enciumado, inspira nas companheiras a vontade de se banhar; descoberto o disfarce, elas matam o rapaz. Dafne, perseguida pelo deus, pede a Zeus que a tire do mundo dos homens e vira loureiro.

Pausânias conhece um roteiro parecido, mas arcádio: Dafne seria filha do rio Ládon, e Leucipo, filho do rei Enômao. Higino, por sua vez, resume a versão do Peneu com um detalhe próprio: é a Terra quem recebe a moça e a transforma. Cada região queria seu rio na história. Em Delfos, contava-se que o primeiro templo de Apolo fora uma cabana feita com ramos de louro trazidos do vale de Tempe, por onde o Peneu desce entre o Olimpo e o Ossa até o mar Egeu. E Pausânias diz que, a seu ver, a coroa de louro dos Jogos Píticos só existia por causa do amor de Apolo pela filha do Ládon.

O que a árvore guarda

Durante séculos, a história foi lida como alegoria da vitória do pudor sobre o desejo, ou da poesia — o louro dos poetas — nascida de um amor impossível. Leitores de hoje notam outra coisa: ninguém pergunta a Dafne o que ela quer, a não ser o pai, que cede contrariado, e sua única saída é deixar de ter corpo humano. O texto de Ovídio sustenta as duas leituras, e talvez por isso continue tão vivo.

Para nós, que lemos os mitos em escalas, Dafne é uma história de margem: começa com um deus que chega por mar e termina numa raiz que não se move mais. Tem uma irmã quase gêmea, a ninfa Siringe, que fugiu de Pã até outro rio e virou caniço. E tem um culpado de asas, Cupido, que reaparece bem mais manso, adormecido sob uma lâmpada, na história de Psiquê. O vale de Tempe está assinalado no nosso mapa das viagens.

Fontes consultadas

  1. Ovídio, Metamorfoses 1.452–567
  2. Partênio de Niceia, Sofrimentos de amor 15
  3. Pausânias, Descrição da Grécia 8.20.2–4; 10.5.9; 10.7.8
  4. Higino, Fábulas 203
  5. Hinos Homéricos, Hino a Apolo 3, parte pítia

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