Mar de Ulisses

Mortais em travessia

Psiquê e Eros: a lâmpada, a gota de óleo e a travessia

Um conto de velha dentro de um romance de estrada

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Pintura em nanquim e aguada: Psiquê ergue uma lamparina de óleo sobre Eros adormecido, de asas abertas, num quarto escuro com cortinas que ondulam como o mar.

Antes de Psiquê sofrer qualquer coisa, há um cortejo marinho. Vênus, furiosa com uma mortal que lhe roubou os devotos, dá ordens ao filho e segue para a praia mais próxima. Mal pisa na beira das ondas, o mar se arruma para ela: as filhas de Nereu cantam em coro, Portuno chega de barba azulada, Salácia traz o colo cheio de peixes, o menino Palêmon conduz um golfinho, e bandos de Tritões sopram conchas; um deles ergue um espelho diante da deusa, outro a protege do sol com um véu de seda. A cena, escrita por Apuleio no século II d.C., abre a mais famosa história de amor da literatura latina. E começa, como convém a este diário, à beira-mar.

Um conto dentro de um romance

A história de Psiquê e Cupido — Apuleio usa os nomes latinos, Vênus e Cupido, para os deuses que os gregos chamavam Afrodite e Eros — ocupa o centro das Metamorfoses, o romance que a tradição apelidou de O Asno de Ouro. O narrador, Lúcio, foi transformado em asno por um erro de magia e vive de dono em dono. Num esconderijo de ladrões, ouve uma velha contar o conto a uma noiva sequestrada, para distraí-la do medo. É uma fábula de velha, diz o próprio texto: uma história para consolar.

Era uma vez um rei e uma rainha com três filhas. As duas mais velhas eram bonitas; a caçula, Psiquê, era tão bela que as pessoas vinham de longe, por terra e por mar, adorá-la como uma nova Vênus, e os templos da deusa ficaram vazios. Vênus ordena a Cupido que faça a moça se apaixonar pelo mais miserável dos homens. O pai, preocupado porque ninguém a pede em casamento, consulta o oráculo de Apolo em Mileto e recebe uma resposta terrível: deve deixá-la no alto de um penhasco, vestida para um casamento fúnebre, à espera de um marido monstruoso que voa e que até os deuses temem.

Zéfiro, o vento do oeste, ergue a moça do rochedo e a deposita num vale florido. Ali há um palácio de ouro, servido por vozes sem corpo. O marido só chega no escuro, parte antes do amanhecer e a proíbe de tentar ver seu rosto.

A lâmpada e a navalha

As irmãs, convidadas ao palácio, voltam roídas de inveja e convencem Psiquê de que o marido é uma serpente enorme que vai devorá-la. Ela esconde uma lâmpada e uma navalha. À noite, quando ele adormece, ergue a luz e vê o mais belo dos deuses, com asas úmidas de orvalho, e ao pé da cama o arco e as flechas. Mexendo nelas, fere o dedo numa ponta. Psiquê se apaixona pelo Amor no exato instante em que deveria matá-lo.

E então a lâmpada, fosse por traição, fosse por uma inveja maligna, fosse porque também ela desejava tocar e como que beijar um corpo assim, deixou cair do bico uma gota de óleo fervente no ombro direito do deus.

Apuleio, Metamorfoses (tradução nossa)

Cupido acorda, entende tudo e voa. Psiquê se agarra à perna dele, é levada por um trecho e cai. Tenta se afogar no primeiro rio, mas o rio, por respeito ao deus, a devolve à margem. Ali está sentado Pã, o deus rústico, com a ninfa Eco nos braços, ensinando-a a repetir sons. Ele adivinha o mal de amor e aconselha: em vez de morrer, conquiste Cupido com súplicas.

Enquanto isso, quem leva a notícia a Vênus é uma gaivota branca, dessas que nadam rente às ondas: mergulha até o fundo do Oceano, onde a deusa se banhava, e conta que o filho está ferido e que a família virou assunto de falatório. A partir daí, a mãe do Amor quer a cabeça da nora.

As provas de Vênus

Psiquê procura asilo. Bate no templo de Ceres, que tem pena dela, mas não quer brigar com Vênus — a mesma deusa do trigo cujo luto fundou os Mistérios de Elêusis fecha-lhe a porta. Juno faz o mesmo. Sem saída, Psiquê se entrega à sogra, que a entrega às criadas Inquietação e Tristeza e, depois, lhe impõe quatro provas.

A primeira é separar, antes do anoitecer, um monte enorme de trigo, cevada, milhete, papoula, grão-de-bico, lentilha e fava. Um exército de formigas faz o trabalho por ela. A segunda é trazer lã de ovelhas de velo de ouro, animais selvagens que matam quem se aproxima; um caniço verde, à beira do rio, ensina a esperar o calor do dia passar e recolher os fios presos nos arbustos. A terceira é encher um jarro com a água gelada de uma fonte que alimenta o Estige e o Cocito, no alto de um rochedo guardado por dragões; a águia de Júpiter voa até lá por ela.

A quarta prova é uma viagem ao mundo dos mortos, e Apuleio a desenha com precisão de roteiro de navegação. Uma torre, do alto da qual Psiquê pensava se atirar, fala com ela e indica o caminho: não longe de Esparta fica o Tênaro, o cabo no extremo sul do Peloponeso, onde se abre uma passagem para o reino de Plutão. Psiquê deve levar dois bolos de cevada amassados com vinho e mel nas mãos e duas moedas na boca — uma para o barqueiro na ida, outra na volta; um bolo para Cérbero na entrada, outro na saída. Deve negar ajuda a quem lhe pedir no caminho, sentar-se no chão diante de Prosérpina e comer só pão comum. Sobretudo, não deve abrir a caixinha em que traria um pouco da beleza da rainha dos mortos.

Ela cumpre tudo, menos o último ponto. Na volta, abre a caixa, pensando em ficar mais bonita para o marido, e dela sai apenas um sono profundo, que a derruba na estrada. Cupido, já curado, a encontra, recolhe o sono de volta na caixa e a acorda com uma picada inofensiva da flecha. Júpiter convoca os deuses, legaliza o casamento e manda Mercúrio buscar Psiquê. Ela bebe ambrosia, torna-se imortal, e dessa união nasce uma filha a quem chamam Volúpia, o Prazer.

A alma e o desejo

Psykhé, em grego, quer dizer alma e também borboleta, e a arte helenística já representava, muito antes de Apuleio, um Eros alado abraçando uma jovem com asas de inseto. Para Hesíodo, Eros é um dos primeiros seres do mundo, o mais belo dos imortais, aquele que amolece os membros e vence o juízo. Platão, no Fedro, descreve a alma que vê a beleza e sente crescerem de novo as asas perdidas; no Banquete, faz de Eros não um deus perfeito, mas um ser intermediário, sempre carente, sempre em busca. Apuleio, que se apresentava como filósofo platônico, conhecia esses textos. Fulgêncio, no fim da Antiguidade, transformou o conto em alegoria cristã da alma e da paixão, e muitos leitores medievais e renascentistas seguiram por aí.

Mas o conto também funciona sem filosofia, como mostram as histórias que repetiram seu esquema depois, de A Bela e a Fera às narrativas populares da noiva que perde o marido misterioso e gasta sapatos de ferro para encontrá-lo. E há uma ironia na moldura: quem ouve tudo é um asno, e o romance de Lúcio termina num porto. Em Cencreia, à beira do golfo Sarônico, Lúcio volta a ser homem diante de Ísis, na festa em que se lança ao mar um navio novo para abrir a estação da navegação. O livro que guarda a história da alma em busca do Amor acaba com uma embarcação partindo. O cabo Tênaro de Psiquê está assinalado no nosso mapa das viagens.

Fontes consultadas

  1. Apuleio, Metamorfoses (O Asno de Ouro) 4.28–6.24; 11
  2. Hesíodo, Teogonia 116–122
  3. Platão, Fedro 246a–257b
  4. Platão, O Banquete 201d–212c
  5. Fulgêncio, Mitologias livro 3

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