Mar de Ulisses

Deuses a bordo

Deméter e Elêusis: o luto que virou mistério

Uma deusa de terra firme, uma baía diante de Salamina e um segredo bem guardado

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Pintura em nanquim e aguada: Deméter com feixes de trigo e uma tocha acesa; atrás dela, uma procissão de iniciados desce para Elêusis, com o mar e a névoa ao fundo.

Quem entra em Elêusis pelo mar navega numa baía quase fechada, com a ilha de Salamina barrando o horizonte. Foi nessa costa que, segundo o Hino Homérico a Deméter, uma velha desconhecida parou certo dia junto ao Poço das Virgens e se sentou à sombra de uma oliveira, calada. Às filhas do rei, que desciam para buscar água, contou uma história de marinheiro: chamava-se Doso, vinha de Creta contra a vontade, trazida por piratas sobre o largo dorso do mar, e fugira quando o navio deles atracou em Tórico. Era mentira. A velha era Deméter, a deusa do trigo, e vinha de dias e dias de busca pela filha desaparecida.

Um prado, um grito, nove dias de tochas

O hino, composto provavelmente entre os séculos VII e VI a.C., começa num prado. Perséfone colhe flores com as filhas de Oceano — rosas, açafrão, violetas, jacintos — e estende a mão para um narciso que a Terra fez brotar como armadilha. O chão se abre, e Hades, irmão de Zeus, surge num carro de cavalos imortais e a arrasta para baixo. Zeus tinha consentido. Do rapto, só souberam Hécate, que ouviu o grito de dentro de sua gruta, e Hélio, o Sol, que tudo vê do alto.

Deméter vaga nove dias com tochas acesas nas mãos, sem provar ambrosia nem néctar, sem se banhar. No décimo, acompanhada de Hécate, chega até Hélio, e o Sol diz a verdade: foi Zeus quem deu a menina ao irmão. A deusa então abandona o Olimpo e passa a andar entre os homens, desfigurada, até chegar a Elêusis.

Na casa do rei Céleo e da rainha Metanira, recusa o vinho e o assento de honra. Só uma criada, Iambe, consegue fazê-la sorrir com gracejos. Depois disso, a deusa pede uma bebida de cevada, água e poejo — o kykeón, que os iniciados beberiam durante séculos. Feita ama do filho pequeno do casal, Demofonte, Deméter tenta torná-lo imortal: unge-o com ambrosia e, à noite, esconde-o no fogo como um tição. Metanira espia, grita, e o encanto se quebra. A velha cresce, brilha, enche a casa de perfume e se revela. Ordena que lhe ergam um templo sobre a colina e ali se tranca.

A fome que dobrou os deuses

O trecho seguinte é o mais duro do poema. Sentada em seu templo, Deméter não deixa a semente brotar. Os bois puxam o arado em vão, a cevada branca cai no sulco e não nasce. A humanidade teria perecido de fome, diz o hino, e os deuses ficariam sem oferendas, se Zeus não cedesse. Ele manda Íris, depois todos os imortais, um a um, com presentes. Deméter não se move. Por fim, Hermes desce ao reino dos mortos, e Hades deixa Perséfone partir — não sem antes lhe dar, às escondidas, um grão de romã.

Esse grão decide tudo. Quem prova o alimento de baixo fica preso a ele: Perséfone passará um terço do ano com o marido e o resto com a mãe. Quando ela sobe, a terra floresce. Só então Deméter devolve o trigo aos campos e ensina seus ritos aos príncipes de Elêusis — Triptólemo, Diocles, Eumolpo e Céleo —, ritos que não é permitido transgredir, nem indagar, nem dizer em voz alta.

Feliz quem, entre os homens da terra, viu estas coisas. Mas quem não foi iniciado, quem não teve parte nos ritos, não terá sorte igual depois de morto, lá embaixo, na treva sombria.

Hino Homérico a Deméter (tradução nossa)

Ovídio contou a mesma história em latim, no livro 5 das Metamorfoses, e mudou o cenário: o rapto acontece na Sicília, perto de Ena, e a ninfa Ciane tenta em vão barrar o carro de Plutão. Na versão latina, a menina come sete grãos de romã, quem a denuncia é Ascálafo, e o ano se divide em duas metades iguais. Os detalhes mudam de uma fonte a outra; o núcleo — rapto, luto, fome, retorno pela metade — permanece.

Ao mar, iniciados

Os Mistérios de Elêusis foram celebrados durante séculos, até o fim do século IV d.C. Havia os Mistérios Menores, na primavera, em Agras, junto ao rio Ilisso, e os Maiores, no mês ático de Boedrômion, entre setembro e outubro. Podiam ser iniciados homens e mulheres, cidadãos e escravos, desde que falassem grego e não tivessem as mãos manchadas de sangue.

O calendário reservava um dia de mar. Os candidatos ouviam a ordem hálade, mýstai — “ao mar, iniciados!” — e desciam às praias de Falero, cada um com um leitão, para se purificar na água salgada. Dias depois, saía de Atenas a grande procissão pela Via Sacra, uns vinte quilômetros até Elêusis, com a imagem de Iaco à frente e o grito ritual repetido pela estrada. Ao anoitecer, a multidão chegava com tochas à baía.

O que acontecia dentro do Telestério, a grande sala de iniciação, é justamente o que ignoramos. As fontes falam de coisas mostradas, coisas ditas e coisas feitas; de um hierofante, “aquele que mostra o sagrado”, escolhido na família dos Eumólpidas; de um porta-tocha da família dos Cérices; de uma luz súbita na escuridão. Quem voltava no ano seguinte podia alcançar o grau de epopteía, o de “ter visto”. Pausânias, que descreve meia Grécia com paciência de inventário, avisa que um sonho o proibiu de escrever sobre o que havia dentro dos muros do santuário. E obedeceu.

Uma nuvem de poeira sobre Salamina

O segredo também pesava na política. Em 415 a.C., quando a frota ateniense se preparava para zarpar rumo à Sicília, Alcibíades, um dos comandantes, foi acusado de parodiar os Mistérios em festas privadas. Partiu mesmo assim; um navio oficial foi buscá-lo, e ele preferiu fugir. Muito antes, Ésquilo — nascido em Elêusis — fora acusado de ter revelado em cena algo do rito; Aristóteles lembra que ele se defendeu dizendo não saber que aquilo era segredo.

A cena mais marítima dessa história, porém, está em Heródoto. Em 480 a.C., com a Ática evacuada e a frota grega reunida em Salamina, dois exilados na planície de Elêusis viram erguer-se dali uma nuvem de poeira, como a de trinta mil pessoas em marcha, e ouviram o grito de Iaco. Um deles, ateniense, entendeu: era a procissão dos Mistérios, que naquele ano ninguém podia celebrar, seguindo sozinha para socorrer os navios. Pouco depois, a batalha de Salamina foi travada naquelas águas.

Deméter é deusa de sulco e de eira, não de remo. Ainda assim, seu santuário olhava para o mar, e o caminho do iniciado começava com os pés na água salgada. Talvez por isso a história dela caiba num diário de bordo: é a de alguém que perde quem ama para um lugar de onde não se volta inteiro e negocia, com teimosia, um retorno pela metade. Cícero, que passou por Elêusis, escreveu que ali se aprendia a viver com alegria e a morrer com melhor esperança.

Quem quiser seguir o grito de Iaco encontra um cortejo parecido em outro registro deste diário, o de Dioniso, com quem muitos atenienses identificavam o deus da procissão. E a Ceres latina reaparece, fechando a porta a uma suplicante, na travessia de Psiquê. Elêusis está assinalada no nosso mapa das viagens.

Fontes consultadas

  1. Hinos Homéricos, Hino a Deméter 2
  2. Ovídio, Metamorfoses 5.341–661
  3. Apolodoro, Biblioteca 1.5.1–3
  4. Heródoto, Histórias 8.65
  5. Pausânias, Descrição da Grécia 1.38

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