Mar de Ulisses

Deuses a bordo

Pã: o deus dos pastos cuja morte foi anunciada no mar

Da gruta arcádia ao grito ouvido ao largo de Paxos

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Pintura em nanquim e aguada: o deus Pã, com patas de bode e chifres curtos, toca a siringe sentado entre rochas e pinheiros da Arcádia, envolto em névoa.

O vento caiu de repente, ao entardecer, perto das ilhas Équinades, e o navio ficou à deriva até as proximidades de Paxos. Quase todos os passageiros ainda estavam acordados, muitos bebendo depois do jantar, quando uma voz vinda da ilha chamou pelo piloto, um egípcio chamado Tamo. Ele só respondeu na terceira vez. A voz então ordenou: quando chegar à altura de Palodes, anuncie que o grande Pã está morto. É assim que Plutarco, no diálogo Sobre o declínio dos oráculos, faz um personagem contar a história, ouvida de um passageiro daquele navio, Epiterses. Um deus dos montes e dos rebanhos teve a morte anunciada no mar Jônico. Para entender por que isso impressionou tanto, é preciso voltar à Arcádia.

Um bebê de barba e cascos

O Hino Homérico a Pã, de data incerta, conta que Hermes, pastoreando na Arcádia, se apaixonou pela filha de um certo Dríops. Dela nasceu um menino com pés de bode, dois chifres, barba e uma risada estrondosa. A ama, ao vê-lo, largou o bebê e fugiu. Hermes, ao contrário, envolveu o filho em peles de lebre e o levou ao Olimpo, onde todos os deuses se alegraram — Dioniso mais do que ninguém. Daí o nome, diz o poeta: Pã, porque alegrou a todos, em grego pántes. A etimologia é brincadeira de poeta; o nome provavelmente vem de uma raiz ligada a pastorear.

As genealogias não se entendem. Apolodoro faz de Pã filho de Zeus e de Híbris. Heródoto, mais surpreendente para quem navega por estas páginas, registra que os gregos o diziam filho de Hermes e de Penélope — a mesma que esperou Ulisses em Ítaca. O historiador não explica como as histórias se encaixam, e nós também não vamos forçar o encaixe.

Pã é deus de lugares altos e vazios: picos, grutas, pastos de altitude. Seu território de origem é a Arcádia, a região montanhosa no centro do Peloponeso, onde pastores lhe ofereciam cabritos e onde, se a caça ia mal, os rapazes podiam açoitar sua imagem com cebolas-albarrãs — o costume aparece num idílio de Teócrito, em tom de ameaça brincalhona.

A flauta, a ninfa e a hora do meio-dia

O instrumento de Pã tem uma história de perseguição. Ovídio a põe no livro 1 das Metamorfoses: Mercúrio começa a contá-la para adormecer o gigante Argos, que pega no sono antes do fim. A náiade Siringe, devota de Diana, fugia de Pã até ser barrada pelas águas do rio Ládon; pediu socorro às irmãs e, quando o deus pensou agarrá-la, tinha nos braços apenas caniços do brejo. O vento soprou neles e tirou um som lamentoso. Pã juntou caniços desiguais com cera e deu à flauta o nome da ninfa. O enredo é quase o mesmo da fuga de Dafne diante de Apolo, contada poucas centenas de versos antes, e Ovídio sabia disso.

Outra ninfa pagou caro pela música. No romance Dáfnis e Cloé, Longo conta que Eco, criada pelas ninfas e educada pelas Musas, despertou o ciúme de Pã, que enlouqueceu os pastores; eles a despedaçaram, e os pedaços, espalhados pela terra, ainda devolvem as vozes que ouvem.

Os pastores sabiam que esse deus não gostava de ser incomodado. Teócrito põe na boca de um cabreiro a regra do meio-dia:

Não, pastor, ao meio-dia não se toca a flauta. Temos medo de Pã: é a hora em que ele descansa, cansado da caça. Tem gênio forte, e a bile amarga lhe mora na ponta do nariz.

Teócrito, Idílios (tradução nossa)

Pânico em terra e no mar

A palavra “pânico” vem dele. Os gregos chamavam de pânico o medo súbito e sem causa visível que se espalha por um acampamento à noite ou por um rebanho inteiro de uma vez. Heródoto conta que, antes da batalha de Maratona, em 490 a.C., o corredor Filípides, enviado de Atenas a Esparta para pedir ajuda, encontrou Pã no monte Partênio, acima de Tegeia. O deus o chamou pelo nome e perguntou por que os atenienses não lhe davam atenção, logo ele, que tantas vezes lhes fora útil e ainda seria. Depois da vitória, Atenas lhe dedicou uma gruta na encosta da Acrópole, com sacrifícios anuais e uma corrida de tochas.

O deus dos montes também tinha seus pontos no mar. Ésquilo, em Os Persas, descreve a ilhota de Psitália, diante de Salamina, como um ancoradouro ruim, frequentado por Pã, amigo das danças, na beira da praia. E Longo, em Dáfnis e Cloé, faz Pã salvar a pastora dos rapazes de Metimna, que a tinham levado a bordo: naquela noite, as âncoras não subiam, os remos se partiam, golfinhos batiam nos cascos e, do alto de um penhasco, soava uma siringe que apavorava como uma trombeta. O comandante só entendeu quando o deus lhe apareceu em sonho e mandou devolver a menina.

O grande Pã está morto

Voltemos a Tamo. Na altura de Palodes não havia vento nem onda. O piloto foi à popa, olhou para a terra e gritou a frase. Antes que terminasse, ergueu-se um grande lamento, não de uma voz só, mas de muitas, misturado a espanto. A notícia chegou a Roma, e o imperador Tibério mandou chamar o piloto. Os eruditos da corte concluíram que se tratava do Pã filho de Hermes e de Penélope — e assim, por um desvio inesperado, a casa de Ulisses entra também nesta história.

No diálogo de Plutarco, escrito por volta do ano 100 d.C., o episódio serve a uma discussão sobre por que os oráculos andavam silenciosos e se os daímones, seres intermediários entre deuses e homens, podiam morrer. Escritores cristãos, como Eusébio de Cesareia, releram a cena à sua maneira: Tibério reinava quando Jesus morreu, e o fim de Pã soava como o fim dos deuses antigos. No começo do século XX, um estudioso propôs que os passageiros tivessem ouvido, mal entendido, um ritual de lamento por Tamuz, deus do Oriente cujo nome lembra o do piloto. Palodes nunca foi localizada com certeza.

O que fica dessa história, para um diário de bordo, é a imagem: um deus que nunca pisou num convés teve a morte anunciada da popa de um navio, e o mar respondeu com choro. Mas Pã não morreu de todo. Continua no nome do pânico, na flauta de caniços ainda tocada em vários cantos do mundo e no cortejo do vinho, onde dança ao lado de sátiros e mênades — o mesmo bando que acompanha Dioniso de ilha em ilha. Paxos está marcada no nosso mapa das viagens.

Fontes consultadas

  1. Hinos Homéricos, Hino a Pã 19
  2. Heródoto, Histórias 2.145; 6.105–106
  3. Ovídio, Metamorfoses 1.689–712
  4. Teócrito, Idílios 1.15–18; 7.106–108
  5. Plutarco, Sobre o declínio dos oráculos 17 (419B–E)
  6. Longo, Dáfnis e Cloé livros 2–3

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