Mar de Ulisses

Vozes do cais

As Moiras e as Mires: quem fia o destino ao pé do berço

Das fiandeiras de Homero às visitantes da terceira noite

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Pintura em nanquim e aguada: três mulheres fiam, medem e cortam um fio ao lado do berço de um recém-nascido, numa casa de aldeia iluminada por uma lamparina.

O estrangeiro que chegou nu à praia dos feácios ainda não disse o próprio nome. Sentado no palácio de Alcínoo, em Esquéria, recebe do rei a promessa de uma escolta até a sua terra, seja ela onde for. Os feácios são o povo de navegantes mais hábil do mundo, e Alcínoo garante que nada de mal acontecerá ao hóspede durante a travessia. Depois, porém, faz uma ressalva que qualquer grego entenderia:

Lá chegando, ele sofrerá tudo o que o Destino e as pesadas Fiandeiras lhe fiaram com o linho quando nasceu, no dia em que a mãe o deu à luz.

Homero, Odisseia (tradução nossa)

O hóspede é Ulisses, e a frase resume uma ideia antiga: a vida de cada um é um fio, e esse fio foi torcido no nascimento. Os feácios podem levá-lo de volta em uma noite, mas não podem desfazer o que foi fiado.

Fio, sorte e medida

A palavra moîra quer dizer, antes de tudo, “parte”, “porção”: a fatia de carne de cada um no banquete, o lote de terra, o pedaço de vida que cabe a cada pessoa. Em Homero, Moira costuma aparecer no singular, quase sem rosto, e o fio já está lá. Hécuba, na Ilíada, lembra que, quando Heitor nasceu, a Moira lhe fiou o destino de morrer longe dos pais.

Hesíodo dá às Moiras nome e número. São três: Cloto, “a que fia”; Láquesis, “a que sorteia”; Átropos, “a que não volta atrás”. O curioso é que a Teogonia lhes atribui duas genealogias. Num trecho, são filhas da Noite, ao lado da Morte e das Queres; mais adiante, são filhas de Zeus e de Têmis, a deusa da ordem justa, e irmãs das Horas. O poeta não escolhe, e nós também não precisamos escolher: uma versão faz do destino algo mais antigo que os deuses do Olimpo; a outra, parte da ordem do mundo que Zeus organizou.

Platão, no mito de Er que fecha a República, faz delas filhas da Necessidade. Sentadas em tronos, vestidas de branco, giram o fuso do cosmo e cantam: Láquesis, o passado; Cloto, o presente; Átropos, o futuro. As almas que vão renascer passam diante delas para ter confirmada a vida que escolheram.

Ao pé do berço, já na Antiguidade

A ideia de que as fiandeiras visitam o recém-nascido não é invenção moderna. Apolodoro conta que, quando Meléagro tinha sete dias, as Moiras apareceram e anunciaram que o menino morreria quando se consumisse o tição que ardia na lareira. A mãe, Alteia, arrancou a lenha do fogo e a guardou num baú. Anos depois, furiosa porque o filho matara os irmãos dela, devolveu o tição às chamas, e Meléagro morreu.

Nem os deuses as respeitavam sempre. Nas Eumênides, de Ésquilo, as Erínias acusam Apolo de ter embebedado as Moiras para salvar o rei Admeto; na Alceste, de Eurípides, o próprio deus admite que as enganou, conseguindo que Admeto escapasse da morte se alguém aceitasse morrer em seu lugar. É outra face do deus que conhecemos perseguindo Dafne. Em Delfos, segundo Pausânias, havia estátuas de apenas duas Moiras; no lugar da terceira estavam Zeus e Apolo, com o título de “condutores das Moiras”.

O poeta latino Catulo leva as Parcas, o nome romano das fiandeiras, a um casamento à beira-mar. Seu longo poema 64 começa com o navio Argo cortando as ondas pela primeira vez e com Peleu avistando a nereida Tétis entre as espumas. A colcha do leito nupcial mostra Ariadne na praia, vendo partir o navio de Teseu — a cena que antecede a chegada de Dioniso. No banquete das bodas, as três velhas, de corpo trêmulo, fiam e cantam o destino do filho que ainda vai nascer, Aquiles, repetindo um refrão de oficina que, em tradução nossa, soa assim: “correi, fusos, puxando os fios, correi”.

As Mires da terceira noite

Os deuses do Olimpo perderam seus templos, mas as fiandeiras continuaram a visitar as casas. No folclore grego moderno, as Míres — é assim que se pronuncia hoje o plural Moíres — são três mulheres invisíveis que chegam à casa do recém-nascido, em geral na terceira noite depois do parto, para decidir a sorte da criança. Os folcloristas que recolheram essas crenças entre o fim do século XIX e o começo do XX, como o grego Nikolaos Politis e o inglês John Cuthbert Lawson, descrevem preparativos que variam de região para região, mas guardam um fundo comum.

A casa é arrumada e mantida em silêncio. Deixa-se uma lamparina acesa, a porta destrancada ou entreaberta, os cães presos, para que nada assuste as visitantes. Sobre uma mesa ou junto ao berço, põem-se oferendas simples: pão, mel, doces, às vezes amêndoas, um copo d’água. A ideia não é subornar as Mires, mas recebê-las como hóspedes ilustres, de quem se espera boa disposição. Em muitos relatos, elas escrevem o destino na testa da criança, e daí vem a expressão de que algo “estava escrito”.

O ditado mais repetido resume a convicção: o que a Moira escreve não se desfaz. A crença, porém, convive com uma prática cheia de cuidados, como se a família pudesse, ao menos, receber bem quem vem escrever. Crenças vizinhas existem em todo o sudeste da Europa: as Ursitoare romenas, as Sudice dos eslavos do sul, também três, também ao pé do berço. As fadas madrinhas dos contos ocidentais, que distribuem dons e maldições num batizado, são parentes distantes da mesma família.

A sorte tem endereço

Há contos populares gregos em que alguém, cansado da má sorte, sai em viagem para encontrar a própria Moira e pedir que ela reveja o que escreveu. Raramente consegue tudo; às vezes, consegue algum alívio. É uma imagem que um diário de bordo reconhece de imediato: a ideia de que o destino tem endereço e de que se pode navegar até ele, nem que seja para reclamar.

Para os antigos e para as avós das aldeias, o destino não era um conceito abstrato, mas um trabalho manual, feito à luz de lamparina por mãos de mulher: fiar, medir, cortar. Na nossa leitura, isso torna a ideia menos fria. Quem fia pode ter pressa ou paciência, pode ser bem ou mal recebida. Contamos essas crenças como tradição viva de muitas famílias, não como curiosidade de museu. E, como lembrou Alcínoo ao náufrago, mesmo a melhor tripulação só leva alguém até a praia; dali em diante, conta o fio.

Fontes consultadas

  1. Homero, Odisseia 7.196–198
  2. Hesíodo, Teogonia 217–222; 904–906
  3. Platão, República 10, 617b–d
  4. Catulo, Poemas 64
  5. N. G. Politis, Paradóseis (Tradições) Atenas, 1904
  6. J. C. Lawson, Modern Greek Folklore and Ancient Greek Religion Cambridge, 1910

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